Dicas

As Montanhas de Buda – dica de literatura

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Ler é uma coisa que me transporta para qualquer lugar, real ou não. Me faz sentir emoções de todas as naturezas: alegria, tristeza, raiva, compaixão, enfim, me envolvo de verdade. Ao ler As Montanhas de Buda, muitas vezes fiquei com os olhos mareados, imaginando tudo que esse povo tão pacífico foi obrigado a passar.

Essa obra narra a história do calvário de Kinsom e Yandol, duas jovens monjas que, oprimidas no Tibete, resolvem ir buscar refúgio junto ao dalai-lama, que foi exilado na Índia.

A alma desse povo unido por sua força indomável e seu espírito de resistência é um relato de perseverança, de fé e força, diante da opressão do governo chinês.

A jovem camponesa Kinsom ousou defender um homem agredido por chineses ao gritar “Viva o Tibete livre!”, isso foi a senha para que fosse detida e ficasse três anos na prisão de Gutsa, conhecida como o Inferno chinês. Lá conheceu Yandol, uma monja de quinze anos com quem começa uma verdadeira amizade e por meio da fé e da solidariedade, ambas sobrevivem às dificuldades da cadeia.

Após serem soltas da prisão, as amigas decidem se juntar a um grupo de refugiados que pretende atravessar as montanhas do Himalaia durante a noite. O objetivo é deixar a opressão em que vivem para encontrar a liberdade e seu líder espiritual, o dalai-lama, na Índia. Para tornarem realidade o sonho de uma vida melhor, as jovens terão que sobreviver ao cansaço, frio, fome e as implacáveis patrulhas chinesas.

Na geleira, o terreno se torna mais irregular e duro. Obrigados a mudar constantemente de ritmo, o grupo precisa prestar atenção para não torcer os tornozelos. Kinsom sabe que esse simples incidente pode significar a morte e inspeciona o chão, põe primeiramnete um pé, depois outro, como se estivesse atravessando um campo minado. Até ela, tão firme, mostra sinais de cansaço. Atrás, Yandol, esgotada, avança lentamente. A cada dois passos, seus joelhos tremem, e ela cai. Precisa fazer um esforço terrível para se levantar. A neve, que cobre as rochas e as placas de gelo, torna a subida ainda mais penosa.

Os khampas, por sua vez, são vítimas da “cegueira das neves”, queimadura da córnea que acontece quase sem avisar e dá impressão de que se tem areia debaixo das pálpebras. O tempo é a única cura. À noite, em volta de uma fogueira, eles sopram uns nos olhos dos outros. As cataplasmas de folhas de chá que Yandol aplica neles acalmam as queimaduras.

Nos dias seguintes, esses corajosos guerreiros, com os olhos cobertos por pedaços de tecido, andam em uma coluna cega atrás das monjas, que abrem caminho. Eles tropeçam, gemem. O guia, irritado com o fato de seus companheiros não terem tomado a precaução de trazer óculos escuros, não lhes dá nenhuma atenção.

Aparecem as primeiras vítimas da viagem. Ao atravessar a geleira, Kinsom percebe algumas gotas de sangue na neve. Acaba entendendo que o menino está sangrando: as solas de seu tênis estão furadas. A planta de seus pés está rasgada pela crosta gelada de neve e ele manca. Apesar da dor, ele não se queixa. Talvez pense, como bom tibetano, que o destino individual não deve ser obstáculo à salvação do grupo. É inútil esperar piedade das montanhas; ali, conta apenas o instinto de sobrevivência.

Por meio do drama vivido por Kinsom e Yandol, “As Montanhas de Buda”, o autor espanhol Javier Moro expõe os tormentos e dificuldades que a população tibetana sofre diariamente diante da opressão das autoridades chinesas. Conhecido por utilizar fatos históricos unidos à ficção, o autor apresenta nas histórias de Kinsom e Yandol o sofrimento de um povo que luta para ter sua fé e identidade preservadas.

Texto: Lila Amaral.

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