Arquitetura

Museo Guggenheim – Bilbao – Espanha

Em 2019, decidi viajar, pra conhecer Bilbao, escolhida como Melhor Cidade Europeia de 2018, concedido pela organização internacional The Academy of Urbanism.

Isso gerou em mim uma grande curiosidade, pelo fato de ser arquiteta e por querer ver de perto, os edifícios dos quais eu falava para meus alunos, nas aulas de projeto, na Faculdade de Arquitetura, onde lecionava.

Bilbao é uma das cidades mais avant-garde da Espanha, a chamada “cidade do futuro“.

No final dos anos 80, Bilbao era uma cidade que lutava contra o colapso das indústrias de aço e navegação. A cidade era feia, degradada, perigosa, suja e com turismo, quase zero, porque ninguém quer viajar para ver coisas feias, numa cidade perigosa.

Mas, o governo tinha um plano, pra reinventar a cidade e torná-la um polo de turismo e cultura. Coincidentemente, a Fundação Guggenheim, decidiu abrir mais uma, de suas galerias mundialmente famosas, na Europa e o acordo foi feito com o governo de Bilbao.

A ideia era abrir uma galeria contemporânea, para expor o trabalho de artistas famosos, mas o edifício em si, deveria ser a maior obra de arte nesse contexto.

Inovador, o edifício seria rival de grandes expoentes arquitetônicos, como: a Ópera de Sydney e torre Eiffel, mas o objetivo era mudar totalmente a cara da cidade e o objetivo foi alcançado.

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Vista aérea, com implantação do Guggenheim. Fonte: Google.

O arquiteto contratado para execução do projeto, foi ninguém menos que Frank Gehry.

Para alguém nascido em 1929, não há como negar que, Gehry tem um espírito inovador, quase combativo, que alguns classificam como starchitect, isto é: o arquiteto que curte ser celebridade e usou isso para o sucesso de sua brilhante carreira profissional.

Gehry é um ícone da arquitetura contemporânea, e o projeto do museu, como não poderia deixar de ser, também virou um ícone mundial, transformando completamente o cenário de Bilbao.

O projeto era desafiador e exigiu o uso de uma tecnologia, inédita na arquitetura, para transformar esse croquis, no impressionante edifício de titânio, abaixo.

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Primeiro croquis, feito por Gehry, para o Guggenheim.
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Museu Guggenheim de Bilbao, Espanha.

O projeto pedia paredes curvas, complexas e delicadas e a Fundação Guggenheim espaços para exposiçãoes enormes e para se ter as duas coisas, as paredes tinham que ser pouco espessas. Com 24.000m2 de superfície, 9.000m2 são destinados ao espaço para exposições.

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Espaço para exposiçãoes, extremamente amplos. Acervo pessoal.

Os engenheiros estruturais, tinham que assegurar que o prédio fosse forte o suficiente, para se sustentar. Eles poderiam optar pelo concreto, mais isso faria com que as paredes ficassem espessas demais, então decidiram usar uma estrutura toda em aço.

Mas, como garantir que essa estrutura tão delicada, seria forte o bastante para suportar todo o peso do prédio?

Por mais incrível que possa parecer, a resposta estava nas linhas curvas do partido arquitetônico. Os engenheiros perceberam que poderiam resolver o problema estrutural e espacial, usando superfícies curvas.

Os engenheiros, que geralmente, preferem estruturas simples e retas, pediram a Gehry que colocasse mais curvas no projeto. Mas, porque?

A resposta estava no formato de um ovo. No ovo deitado, as forças de compressão são distribuídas de forma menos concentrada, o que torna sua resistência mais frágil. Já no ovo em pé, as forças diminuem os esforços e torna a estrutura mais resistente, por causa da curvatura dupla.

Um teste foi feito, com ovos crus, dispostos entre placas de acrílico e sobre eles, um carro compactado, com 750kg, foi colocado. Resultado, os ovos permaneceram intactos.

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Teste realizado pelos engenheiros, com ovos.
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Processo de curvatura dupla usada nas paredes externas do museu.

Os problemas do Guggenheim estavam quase solucionados.

Diante da complexidade do projeto, da quantidade de curvas e detalhes, colocar isso em planta, seria um trabalho, não impossível, mas hercúleo, porque seriam necessárias milhares de plantas (sem tanta precisão), para representar o edifício. Então o que fazer?

Pela primeira vez, foi utilizado o programa CAD em 3D, para construção de um edifício. Esse processo só era utilizado até então, para construção de carros e aviões. Hoje já existem tecnologias, como o BIM. Mas, o Guggenheim foi construído a 23 anos atrás, então é algo realmente fantástico.

Gehry construí uma maquete e ela era o norte dos desenhistas. Mas como medir formas abstratas com tanta precisão? As medições em 3D, com coordenadas X, Y e Z, para conseguir as maquetes virtuais, só foram possíveis, graças a um equipamento chamado roda de medição, que evoluiu para um trackball e dessa forma as medições eram precisas e os desenhistas estavam com o material que precisavam.

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Maquetes virtuais do Guggenheim.

Mas, Gehry ainda tinha outro desafio, depois que todo o esqueleto do edifício estava construído, como evitar a poluição e a umidade de Bilbao, sobre as fachadas? Lembrando que Bilbao era uma cidade portuária, altamente poluída. Era necessário um material mais resistente que o aço.

A solução foi encontrada em modelos de submarinos russos, feitos de titânio, material muito mais leve, mais resistente e que não sofre corrosão.

 

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Ora prateado.
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Ora dourado.

Além disso, o titânio é um material que parece ter vida. Diferente dos materiais testados: aço, alumínio e aço inox, o titânio absorve a luz e a reflete de uma maneira especial. Dependendo do ângulo e da luz, ele parece ser prateado, em alguns momentos, dourado e com milhares de nuances diferentes. Como as escamas dos peixes, que tem aquele brilho único.

O titânio é um material fabuloso. Em contato com o calor, ele muda completamente de cor, como mostra a foto abaixo.

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Placa de titânio, aquecida com um maçarico, ficou azul.

Gehry finalmente encontrou o revestimento perfeito, para sua obra de arte, mas ainda tinha mais um problema pra solucionar.

O titânio apesar de leve, tinha que ser instalado em placas, parafusadas. Bilbao é uma cidade úmida, onde chove o dobro do que chove em Londres. Como proteger uma superfície imensa, com tantos furos?

Não é nada interessante ter áreas vulneráveis, num lugar repleto de obras de arte de valor.

Foi usado um material especial, visco elástico, que mesmo sofrendo qualquer tipo de deformação, volta ao formato original. E dessa forma os milhares de parafusos, usados para prender as placas, foram impermeabilizados e o problema estava solucionado.

Pelo fato do museu ser todo feito em aço, a preocupação com incêndio era grande, porque em edifícios públicos isso é um risco grande, apesar de toda vigilância. Num caso de incêndio, todo o aço derreteria e o museu viria abaixo, pessoas poderiam morrer e o acervo milionário, poderia se perder.

A solução encontrada pela engenharia, foi revestir toda a estrutura metálica, com um composto feito de um material proveniente de lava vulcânica (lã mineral) e cimento. Ele protege a estrutura por 4 horas, a temperaturas de até 1.000 graus. Isso seria tempo suficiente para salvar tudo e todos.

Sem a combinação de um arquiteto brilhante, uma engenharia de altíssimo nível, tecnologias de ponta e profissionais altamente qualificados, Bilbao jamais teria essa jóia, que elevou o status da cidade a melhor cidade Europeia de 2018.

O Museu Guggenheim é fantástico, por dentro e por fora.

Essa construção de caráter inovador, teve alto custo (quase 170 milhões de dólares) e sua alta tecnologia elevou, também, seus custos de manutenção e limpeza, além de gerar questionamentos quanto à função do Museu, que se tornou mais atraente que as próprias obras expostas. Questionamentos a parte, hoje o Guggenheim é um dos museus mais visitados do mundo e o fluxo de turistas, não só banca sua manutenção, como gera um lucro extraordinário.

Visto do rio, o edifício parece ter a forma de um barco, homenageando a cidade portuária de Bilbao.

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Sua forma lembra um grande barco ancorado no porto.

Bilbao foi um dos melhores destinos que fui até hoje e o Guggenheim, certamente, um dos edifícios mais marcantes que tive o prazer de conhecer.

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Museu Guggenheim, Bilbao, 2019. Acervo pessoal.

Viaje tranquilo para Bilbao!

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Referências:

  • “A nova ousadia de Gehry. Museu Guggenheim, Bilbao, Espanha”. AU – Arquitetura e Urbanismo, n° 75. São Paulo, dez./jan. 1998, p. 42-55.
  • https://www.guggenheim.org

2 comentários em “Museo Guggenheim – Bilbao – Espanha”

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