Sentimentos

Ensaio sobre a (nossa) cegueira – texto oportuno

Esses dias não tem sido nada fáceis.

Morando na Itália, estou me sentindo fatigada pelo isolamento, triste por tantas mortes, só ontem foram 627 mortos, na região da Lombardia (Norte da Itália).

Achei este texto altamente oportuno, para o momento que estamos vivendo, principalmente o momento que eu estou vivendo.

Ensaio sobre a (nossa) cegueira

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Fonte: Facebook

Em 1996 estava no supermercado e tinha o hábito de fazer minhas compras por volta das 02:00 da manhã. Supermercado vazio, hortifrutis frescos, tempo para escolher frutas e verduras cuidadosamente a dedos. Naquela madrugada, após comprar os gêneros alimentícios e algumas coisas supérfluas, segui meu hábito de folhear livros e fui com meu carrinho de compras até a sessão de livros, onde encontrei um dos livros mais impactantes que li até hoje: O Ensaio Sobre a Cegueira, do escritor português e prêmio Nobel de Literatura José Saramago.

O livro foi publicado em 1995 e narra a história da epidemia de cegueira branca que se espalha por uma cidade, causando um grande colapso na vida das pessoas e abalando as estruturas sociais. Na visão de Saramago o livro foi extremamente doloroso de ser escrito e teve por objetivo “dizer que não somos bons e que é preciso que tenhamos coragem para reconhecer isso”.

Saramago mostra, através desta obra intensiva e sofrida, as reações do ser humano às necessidades, à incapacidade, à impotência, ao desprezo e ao abandono. Leva-nos também a refletir sobre a moral, costumes, ética e preconceito através dos olhos da personagem principal, a mulher do médico, primeiro personagem a ficar cego.

Ironicamente a cegueira branca epidêmica acomete primeiro um médico, justamente um oftalmologista que através da pupila via na retina a alma e vida dos seus clientes. Nesta pandemia o médico chinês que alertou o mundo sobre o coronavírus foi também uma das suas primeiras vítimas.

…Em meio a pandemia, o COVID-19 tem causado sofrimento e dor, perdas de vidas que lamentamos, mas que tememos também fenecer. Surgem outros fatores que tem causado muito sofrimento afetivo, desesperança…não me reporto aqui, apenas, ao isolamento social que a pandemia impõe, mas a epidemia do medo, do excesso de informações a que temos sido expostos diuturnamente, esgotando médicos e pessoas comuns, fragilizando-nos, e curvando-nos genuflexos a irracionalidade e a decisões não probabilísticas…

Saramago diferencia de forma magistral na cegueira branca o ato de ver e enxergar: “Se podes olhar, vê. Se podes ver, repara”. Estamos aturdidos, angustiados com tantas incertezas, cegos, inseguros e bombardeados com tantos protocolos e artigos que já não damos conta de processar tanto saber, de ver e reparar, de separar o que é útil do que é inútil ou fútil. Nesse momento precisamos caminhar na direção do conhecimento subtrativo, mas reconheço não ser tarefa fácil.

No momento atual, vítimas da cegueira por esgotamento psíquico e desespero existencial, que tem tem tornado o ecossistema científico estranho, gerando condutas estapafúrdias, que podem causar muito mais danos que benefícios, expomos nossos semelhantes a todo tipo de panaceia mágica, na expectativa de ludibriar a morte, de enganar a peste, enganando-nos para ter a certeza platônica que fizemos tudo em situação de guerra, onde “tudo vale”. Ledo engano! Pior é que se persistirmos nesse caminho, corremos o risco de concretizar a profecia de Saramago: assumirmos que não somos bons e que não temos coragem para reconhecer isso.

Diante deste cenário desolador , imponho-me uma pergunta: o que cada um de nós pode fazer para tornar o ambiente melhor, mais ameno e esperançoso? Sei que não há resposta unânime, universal e que contemple tantas dúvidas e possibilidades, mas arrisco alguns devaneios para que busquemos o melhor caminho, que encontremos o mederi…

Sugiro que cada um de nós se nos comprometa em não passar adiante qualquer artigo sem que tenhamos feito uma leitura apurada, crítica, sem a cegueira da visão, da pressa em compartilhar qualquer coisa, ser o emissário da novidade…

Proponho, ainda, que nos acautelemos de disseminar informações duvidosas, artigos médicos, áudios ou vídeos da pandemia em grupos de amigos, famílias e leigos. Não estaremos ajudando-os, mas contribuindo para que sejam avassalados brutalmente pelo medo, desespero, ansiedade…estaremos neurotizando nossos familiares e amigos, adoecendo-os psíquica e afetivamente.

Rui Barbosa nos ensinou que a palavra convence e o exemplo arrasta. Que sejamos exemplo de esperança, de paz, de amor e bondade…somos médicos, e por isso, somos respeitados e temos responsabilidade com o bom exemplo!

Urge que ante a fragilidade do imprevisível adotemos condutas robustas, que permitam enfrentar resilientemente o momento pandêmico com serenidade. A partir dessa atitude, se conseguirmos identificar a possibilidade da robustez científica e existencial no enfrentamento sereno da pandemia, poderemos avançar para antifragilidade.

Ser antifragil é está preparado para enfrentar nossos medos e fazer escolhas racionais permitindo-nos tomar melhores decisões sem a ilusão de ser capaz de prever o próximo grande acontecimento, o futuro que vai chegar…

O oposto da fragilidade, a antifragilidade está além do resiliência ou da robustez. O resiliente resiste choques e ao tempo e permanece o mesmo, o antifrágil melhora quando está diante de uma situação inesperada.

Essa pandemia é uma situação inesperada, que somente contemplávamos como cenário apocalíptico de filmes hollywoodianos. É oportunidade de crise; e, somos capazes e podemos amadurecer, tornarmo-nos melhores,; crescer na crise!

Se optarmos pelo caminho do antifrágil, encaremos os eventos adversos associado a SARS-COV 2 de frente e nos aperfeiçoaremos diante dele e não fugiremos do caos. Sairemos melhores deste momento existencial, aprendendo a olhar para dentro de nós, que a saída está dentro…na interação com quem amamos e respeitamos, cuidando de nós mesmos, dos nossos filhos, dos nossos velhos, protegendo-os e protegendo-nos contribuiremos para fazer o que sabemos fazer de melhor: salvar vidas!

Sobre a nossa cegueira, sobre o desafio de ver, enxergar e reparar deixo uma reflexão:

“Por que foi que cegámos, Não sei, talvez um dia se chegue a conhecer a razão, Queres que te diga o que penso, Diz, Penso que não cegámos, penso que estamos cegos, Cegos que veem, Cegos que, vendo, não veem”
“O medo cega, disse a rapariga dos óculos escuros, São palavras certas, já éramos cegos no momento em que cegámos, o medo nos cegou, o medo nos fará continuar cegos, Quem está a falar, perguntou o médico, Um cego, respondeu a voz, só um cego, é o que temos aqui.”

Texto de:

Claudio Marcelo B das Virgens.
Médico Cardiologista e intensivista.
Apaixonado pela vida, pelo riso, e por um bom bate-papo entre amigos!

P.S.: Faço minhas as palavras do Dr. Claudio.

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